foto de faketown em 13/06/08                                                                

Movimento. Este seria um dos temas norteadores de Mares inacabados, primeiro livro de poemas de Casé Lontra Marques. No trabalho, encontramos o movimento latejando seus sentidos por todas as superfícies e possibilitando, desta forma, que o poema reinvente a palavra poética e sua tessitura, como a água em mar para sempre inacabado no movimento incessante da escrita poética e sua densidade de linguagem.

Movimento que impõe a tarefa de “Quebrar a espinha da palavra paralisia. Movimento / além de um isto de melodia.” (p.16). O movimento, então, para “além da melodia”, seria aquele dilema maior tanto da poética de Casé quanto da existência que vem encenada no livro com toda a latência dos corpos, coisas, operários, contatos, superfícies, fomes, paladares, toques, convulsões e sexo.

Em palavras outras, é o movimento e sua instabilidade que reorientam a poesia de Casé, cuja dicção surpreende pela “espessura da linguagem” poética herdada, aproveitando a expressão certeira de Luiz Costa Lima.

Encontramos, na pletora temática do livro e em seu jogo intertextual, linhagens poéticas que fertilizam a dicção do poeta e perpassam desde um João Cabral de Melo Neto a um Ferreira Gullar e, sobretudo, vozes de além-mar como Fiama Hasse Pais Brandão e Herberto Helder.

Os dois poetas portugueses delimitam, sem dúvida, aspectos da dicção poética centrados no intenso e rigoroso labor sêmico do pensamento poético de Casé, propiciando a reinvenção da angústia da origem. Na contramão, percorremos texturas lingüísticas e sabores de significação cujo movimento impele à viagem poética centrada no corpo e na cidade, matrizes constituintes de uma referência maior que atravessa mares, silêncios, sexos, a dor e os fluxos versáteis de um movimento em que o poeta esclarece já no início: “começo de um movimento diferente, em que o impulso de prosseguir / acompanha o passo do paladar” (p.13).

 Este “movimento diferente” e em processo contínuo de diferenciação, nos conduz, como se estivéssemos em concatenada narrativa, à cidade e ao próprio mar, à água insalubre da “violência sobretudo atenda” (p. 13).

Neste jogo versátil e labiríntico, o poeta nos faz, com exímio artesanato de linguagem, atravessar os “mares inacabados” da múltipla e caótica “visão”. Em navegação de múltiplos sentidos, não podemos nos esquecer que “Ver”, como diria Clarice Lispector, “é uma tal desorganização do olho” e , também, da lição de João Cabral.

Nos Mares inacabados de Casé Lontra Marques, percorremos a superfície do mundo e das coisas sob o “sol da atenção”, reencontrando a insistente “vértebra aberta / durante a súbita insolação” (p.92).

 

Alexandre Moraes

Poeta, crítico e professor do Departamento de Línguas e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo